Quantos livros você vai ler esse ano?

 


Eu sou professor de filosofia no ensino médio, e sempre pergunto aos meus alunos, que estão na faixa etária dos 15 aos 17 anos mais ou menos, no primeiro dia de aula: “quantos livros você leu esse ano?”. A pergunta é para quebrar o gelo, porque muitos deles acham absurda essa pergunta, feita na primeira semana de fevereiro. Às vezes, a surpresa é grande quando alguns alunos respondem a quantidade de livros lidos nas férias. Mas na maioria das vezes, as respostas são desoladoras, pois os alunos do ensino médio leem pouquíssimo. Infelizmente esse não é um problema apenas dos alunos do ensino médio, mas de toda a população brasileira. Segundo o portal de notícias da Unisinos, o brasileiro lê em média quatro livros por ano, enquanto os canadenses leem doze. Com certeza é uma média de leitura muito baixa para qualquer ser humano que se pretenda instruído, quanto mais um país.

É evidente que a quantidade de livros que uma pessoa lê por ano não determina necessariamente a sua cultura, inteligência ou sabedoria. No entanto, o livro é um instrumento fundamental para darmos cada vez mais espaço ao senso crítico em nossas vidas, e um menor espaço ao senso comum, que não está sempre errado, mas muitas vezes nos mete em confusão. É por isso que quero apresentar aqui algumas dicas de como criar o hábito da leitura, partindo um pouco da minha experiência de leitor de pelo menos o dobro de livros da média canadense, desde o meu ensino fundamental. Naquela altura, fui fisgado pelos livros ao conhecer a série Os Karas, do escritor de literatura infanto-juvenil, o brasileiro Pedro Bandeira. Desde que me apaixonei pelos livros com a instigação dos mistérios desse grupo de adolescentes, fui cada vez mais mergulhando nesse universo de infinitas possibilidades.

Em primeiro lugar eu quero fazer uma comparação entre a leitura e o treino físico na academia, portanto vou comparar o treino de músculos ao treino de neurônios. Na academia, a primeira lição básica que todos aprendem é que se deve começar devagar, pegando leve. Bem, isso significa que alguém que nunca leu um livro na vida, jamais deve começar por um livro teórico de quinhentas páginas ou mais. Sempre se deve começar a ler pelos assuntos que mais interessam a pessoa, dado que será mais fácil a sua identificação com o tema. Com certeza se deve começar lendo sempre literatura, então talvez seja mais inteligente a pessoa ler textos curtos como poemas, crônicas ou contos, antes de ler grandes romances. Aquele que quer começar a ler por calhamaços, dificilmente chegará ao final do primeiro, quanto mais ao final de muitos. É preciso ter paciência consigo mesmo e começar devagar.

Depois de estabelecido o estilo de texto com o qual a pessoa mais se identifica é preciso trabalhar a constância. Ir à academia uma vez por semana ou menos que isso, com certeza não trará muitos resultados no seu corpo. Também não alcançará o hábito da leitura quem lê muito raramente. Hábitos se constroem com constância, com persistência, com insistência. E mais uma vez aqui vale lembrar a primeira dica, nada de estabelecer no começo três horas diárias de leitura, por exemplo. Primeiro porque isso é infactível para muitas pessoas que precisam trabalhar cerca de oito horas por dia, ou estudar e trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, do relacionamento e de si mesmo. Estabeleça quinze minutos, meia hora, alguma coisa assim, que seja factível e que você consiga cumprir todos os dias. Gastamos facilmente esse tempo no celular, cuidando da vida dos outros pelas redes sociais.

Muito bem, você identificou seu tipo de texto e conseguir fixar isso na sua rotina, agora é hora de progredir. Seu treinador da academia lhe dirá a mesma coisa depois que você aprender a fazer os exercícios da maneira correta, é preciso aumentar a carga aos poucos. No nosso caso aqui, você pode escolher entre livros mais extensos, textos mais complexos, ou simplesmente dedicar mais tempo diariamente ao tipo de texto inicial. Mas comprometa-se a tomar textos mais difíceis em algum momento, isso é fundamental para o desenvolvimento da sua inteligência. Assim como seus músculos devem ser desafiados com cargas cada vez maiores, seus neurônios também devem ser desafiados com textos cada vez mais difíceis. Não há progresso, em nenhum aspecto da natureza humana, que não tenha vindo de um desafio. Isso se aplica também ao desenvolvimento da inteligência.

Depois que você adquiriu o hábito da leitura e entendeu como é o mecanismo de progresso, é importante que você vá diversificando os temas de suas leituras. A literatura é o fundamento de tudo, sejam os livros clássicos (muito importantes) ou os contemporâneos, pois com ela enriquecemos nosso vocabulário e nosso imaginário. Muito importante também que você sempre leia algo referente à sua profissão, mesmo que seja mais operacional e menos intelectual, pois vai te dando cada vez mais domínio daquilo que você faz e consequentemente vai te tornando um profissional mais competente e eficaz. Mas, como não poderia deixar de fazer, também é importante entrar em contato com textos mais teóricos, que ampliem sua visão de mundo. As ciências humanas são fundamentais para entendermos a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. Portanto, leia filosofia, sociologia, história, geografia, psicologia etc.

Acima de tudo, é fundamental fazer as coisas certas pelos motivos certos. Não adianta você ler um livro por semana, mais de cinquenta por ano, para com isso se tornar uma pessoa arrogante e petulante. Nesse sentido é fundamental a lição do grande mestre Sócrates, que não escreveu nenhum livro e provavelmente também não leu: “Só sei que nada sei”. À medida em que vamos mergulhando no mundo do conhecimento, vamos reconhecendo o quanto sabemos pouquíssimo de tudo o que o universo tem a nos ensinar.

Prof. Me. Rafael Ferreira de Melo Brito da Silva

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