A noção de trabalho decente em Bento XVI



Esta semana completou um mês que o Papa Emérito Bento XVI faleceu. Desde então tenho pensado no que escrever para homenagear este que foi o primeiro papa que pude acompanhar conscientemente, dado que nasci no pontificado de São João Paulo II, mas quando ele faleceu em 2005 eu tinha doze anos de idade, e pouquíssima noção do fosse um papa. Então escolhi comentar um trecho da carta encíclica Caritas in veritate, publicada em 29 de junho de 2009. O trecho ao qual eu me refiro é o seguinte:

“Qual é o significado da palavra « decente » aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a expressão da dignidade essencial de todo o homem e mulher: um trabalho escolhido livremente, que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discriminação; um trabalho que consinta satisfazer as necessidades das famílias e dar a escolaridade aos filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se livremente e fazerem ouvir a sua voz; um trabalho que deixe espaço suficiente para reencontrar as próprias raízes a nível pessoal familiar e espiritual; um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma condição decorosa.” (n. 63)

“...seja a expressão da dignidade essencial de todo o homem e mulher...”: em primeiro lugar, o trabalho decente é aquele que respeita a dignidade de cada ser humano e que, portanto, não desumaniza. Como não pensar em tantos trabalhos aos quais as pessoas mais pobres se submetem por ser a única oportunidade que lhes dão? Deveriam se envergonhar aqueles que oferecem trabalhos degradantes, que objetificam as pessoas.

“...um trabalho escolhido livremente...”: o trabalho escravizado é uma mancha irreparável na história. Nenhum ser humano, por qualquer falsa justificativa que seja, deveria ser submetido à escravidão. Infelizmente constatamos que essa ofensa grave aos direitos humanos não ficou no passado. No Brasil, último país do mundo a abolir legalmente a escravidão, ainda são resgatadas pessoas em trabalhos análogos à escravidão. É vergonhoso, é ultrajante, é imoral.

“...que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao desenvolvimento da sua comunidade...”: é importante desenvolver nos cidadãos a consciência de que o seu trabalho deve ter como meta não só alcançar os seus objetivos pessoais, mas colaborar com toda a comunidade da qual faz parte. Quantos profissionais acabam agindo de forma antiética, levando em conta apenas os próprios interesses, lesando financeiramente, fisicamente, psicologicamente, socialmente tantas e tantas pessoas.

“...um trabalho que, deste modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discriminação...”: impedir que uma pessoa que precisa trabalhar para se sustentar tenha acesso a um emprego digno por sua cor de pele, aparência física, deficiências, credos religiosos, políticos e filosóficos ou seja por qual motivo for, é muito grave. A uniformidade muitas vezes nos deixa estagnados, a diversidade humana é importante fator de progresso.

“...um trabalho que consinta satisfazer as necessidades das famílias e dar a escolaridade aos filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar...”: como não pensar na desproporção dos salários dos funcionários em relação aos lucros dos empregadores? Muitas vezes os funcionários são submetidos a jornadas exaustivas de trabalho por baixos salários, enquanto seus empregadores podem desfrutar de uma vida luxuosa. Muitos são os trabalhadores, que mesmo empregados, não conseguem ter uma vida digna. As crianças não deveriam ter que “optar” entre a escola e o trabalho. Isso é um mecanismo de perpetuação das injustiças sociais, pois se não tiverem oportunidade de estudar, também não terão a oportunidade de uma vida mais digna do que a de seus pais.

“...um trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se livremente e fazerem ouvir a sua voz...”: a doutrina social da Igreja sempre defendeu, desde o Papa Leão XIII o direito de os trabalhadores se unirem para reivindicar por melhores condições de trabalho. Por mais que o fenômeno dos sindicatos seja bastante complexo, somente a união dos trabalhadores pode fazer peito aos desmandos de um empregador poderoso.

“...um trabalho que deixe espaço suficiente para reencontrar as próprias raízes a nível pessoal familiar e espiritual...”: embora muitas vezes o trabalho ocupe boa parte de nossas vidas, ele jamais deve ser o centro delas. Nenhuma pessoa deveria ter que escolher entre ter uma carreira de sucesso e uma vida pessoal feliz e realizada. Uma dimensão deveria ser complemento da outra.

“...um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma condição decorosa.”: como é difícil para muitas pessoas chegar à aposentadoria. Geralmente os que chegam, já estão doentes e debilitados pela labuta de uma vida inteira. A aposentadoria deveria ser um prêmio em retribuição a toda uma vida de trabalho, mas muitas vezes se transforma num grande transtorno.

Bento XVI, homem de grande inteligência e profunda sensibilidade, soube expressar muito bem nessas poucas palavras, qual ideia de trabalho deveríamos perseguir. Quem sabe um dia, possamos eu e você, viver em um mundo onde o trabalho seja um elemento de humanização e não de degradação da vida humana.

Prof. Me. Rafael Ferreira de Melo Brito da Silva

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