A solução moral para os nossos problemas
Como então
solucionar tal problema? Como decidir qual a melhor posição a ser tomada? Não
espere por uma resposta direta e fácil, apesar do título deste texto. A minha
proposta aqui é colocar mais lenha na fogueira e propor mais uma perspectiva a
ser considerada, que obviamente quer ser apresentada como melhor do que as que
já estão em circulação. A perspectiva moral que quero apresentar brevemente é
aquela proposta por Alasdair MacIntyre, filósofo escocês radicados nos Estados
Unidos da América, que neste dia (12 de janeiro de 2023) completa 94 anos de
idade, e a quem quero homenagear com este artigo. Penso que sua proposta pode
ser apresentada como melhor diante das outras, porque ela se propõe a resgatar
algo que tem se perdido há muito tempo, a racionalidade. Por incrível que pareça,
estamos perdendo a capacidade de agir racionalmente, e é isso que MacIntyre
denuncia e tenta consertar.
Sua denúncia
se trata do grave estado de desordem e desacordo moral em que vivemos na
contemporaneidade. Seja qual for o assunto colocado em pauta, muito além dos
dois exemplos acima, é muito fácil encontrar inúmeros argumentos contrários e
muito difícil se chegar a uma unanimidade ou sequer a um acordo. Todos dizem
estar do lado certo e apontam facilmente a falta de caráter de quem está do
outro lado. Mas é óbvio que isso de nada adianta, dado que continuamos tendo
que conviver, sejam quantos lados opostos existirem. E sem acordos, a
convivência nunca se torna pacífica e a vida de ninguém se torna feliz, e a
roda da fortuna se ocupa de revezar alegrias e tristezas para todos os lados,
sempre. MacIntyre não tem a pretensão de alcançar a unanimidade, mas cumpre o
seu papel de filósofo em nos oferecer uma perspectiva diferente das que estamos
acostumados.
A origem de
todo esse desacordo, segundo o filósofo, está numa decisão equivocada tomada
pelos filósofos modernos do Iluminismo no século XVIII, que foi rejeitar o paradigma
moral predominante até então, que era a teleologia. A palavra teleologia, de
origem grega, neste contexto do campo moral, tem a ver com a orientação de todas
as ações de acordo com a finalidade da vida humana. Ora, na filosofia clássica
grega, em especial a de Aristóteles, a finalidade da vida humana, o bem supremo
almejado é a felicidade, que ele define como um estado de espírito que leva a
razão a sempre escolher o meio-termo entre dois extremos, um por excesso e
outro por escassez, sendo esse meio-termo a virtude que só se alcança pelo
hábito. Com certeza é preciso muito mais do que isso para entender o que é a
felicidade segundo Aristóteles, mas o fato é que ela é a teleologia buscada por
ele, por assim dizer.
Evidentemente
essa concepção teleológica de felicidade tem como fundamento uma definição
metafísica do ser humano, compreendido por Aristóteles como uma união
hilemórfica de corpo material e alma racional. Essa concepção de bem supremo só
pode ser entendida dentro da perspectiva do ser humano como capaz de dominar os
seus instintos corporais que o leva a buscar os extremos da escassez e do
excesso, buscando assim o equilíbrio do meio-termo virtuoso com a força de
vontade guiada pela razão. MacIntyre vê na filosofia moral de Aristóteles algo
fundamental e que os modernos rejeitaram, entre outros motivos, porque ela foi
acolhida pela tradição cristã, tendo como o seu principal representante o frade
dominicano e filósofo medieval Tomás de Aquino. A filosofia moral do Aquinate
segue basicamente a estrutura aristotélica, com seus esperados acréscimos de
doutrina cristã.
Tomás de
Aquino concorda que as ações humanas devem ser guiadas para uma finalidade e
que esta seja o bem supremo a ser almejado pelo ser humano. Enquanto
Aristóteles o identifica como a felicidade que pode ser alcançada com muito
esforço nesta vida terrena, Tomás identifica esse bem supremo como a bem-aventurança
daqueles que estão em Deus, no céu, conforme a doutrina católica. Além disso, essa
finalidade não pode ser alcançada apenas com o esforço próprio do indivíduo,
sem que a ele auxilie a graça divina, única capaz de vencer mais do que vícios,
mas pecados contra o próprio criador. MacIntyre identifica, portanto, nesses
dois autores, uma concepção biológica e metafísica do ser humano que dá
fundamento a toda a sua filosofia moral, e é justamente isso que é rejeitado
pelos filósofos modernos, que propõem no lugar uma filosofia moral puramente
racionalista.
Para
MacIntyre, o preconceito contra a teleologia metafísica propagado pelos
filósofos iluministas, fez com que contratualistas, kantianos e utilitaristas
propusessem uma filosofia moral que fosse universal e fundamentada apenas na
razão humana. No entanto, ele denuncia que esse projeto iluminista fracassou visivelmente,
primeiro por não conseguirem se desvencilhar dos valores da moral teleológica,
e segundo por não conseguirem estabelecer uma única moral universal. Os valores
defendidos pelos iluministas em geral são os mesmos defendidos pelos
pré-modernos, porém estes os fundamentam na teleologia metafísica e aqueles na
razão humana. Se os valores são os mesmos, como a fidelidade entre cônjuges e a
honestidade, qual o sentido de apenas mudar sua justificativa? Além disso, ao
invés de formularem uma moral universal, o que fizeram foi produzir uma maior
variedade de formulações morais que ficam disputando entre si qual tem a razão.
Se os filósofos modernos fracassaram em seus projetos morais, e não só isso como também acabaram causando toda essa desordem moral contemporânea da qual começamos comentando acima, qual é a solução? A proposta de MacIntyre é reabilitar a ética das virtudes de Aristóteles e Tomás de Aquino, não necessariamente em seu conteúdo, mas inspirando-se em sua forma para daí propor sua concepção de virtude. Sua concepção de virtude está dividida em três conceitos subordinados que são o de prática, de unidade narrativa da vida humana e de tradição moral de pesquisa racional. Cada um desses conceitos ajuda a entender o que vai auxiliar o ser humano a realizar-se como tal, encontrando assim o seu bem supremo.
A prática não pode ser confundida com uma ação individual, mas é na verdade uma ação coletiva socialmente estabelecida. Por isso escrever um livro não é uma prática, mas a literatura sim. Ligados a essa prática existem bens internos, que são alcançados apenas dentro dessa prática e que alcançam toda a comunidade nela envolvida. As instituições que formalizam as práticas, podem tanto ajudar a alcançar os bens internos como atrapalhar. Toda vez que a instituição busca os bens externos à prática, como o dinheiro, a fama e o poder, ela promove o vício e não a virtude.
Apesar de
as virtudes serem inicialmente a disposição de buscar os bens internos a uma
prática, que é uma atividade social e coletiva, elas se dão na vida de cada
indivíduo. Mas essa vida não pode de forma alguma ser interpretada como uma
sequência de várias ações individuais, desconexas entre si. A vida humana, pelo
contrário é comparável a uma narrativa, com começo, meio e fim, onde cada etapa
contextualiza a seguinte. Naturalmente, essa narrativa não é um monólogo, uma
peça de um personagem só, mas uma trama de várias histórias entrelaçadas, onde
todos são coautores das histórias uns dos outros. Ninguém é ou vive numa ilha,
sem deixar de ser essencialmente humano, ser de relação.
É essencial
à evolução humana adequar-se às novas circunstâncias, buscando novas respostas
para os novos desafios que vão surgindo. Daí ser fundamental que não se pense
em estruturas fixas por gerações. Essa é a ideia comum que se tem de tradição,
algo estável e rígido, mas o que MacIntyre entende por isso é justamente o
contrário. A tradição moral de pesquisa racional se dá justamente num processo
de contínua renovação teórica, de tal forma que a crise epistemológica é a
melhor oportunidade de renovação e superação dos limites de uma tradição que
deixa de ser coerente com a realidade. Além da crise epistemológica, o contato
com outras tradições é também fundamental para a evolução daquela que está em
crise, ou até mesmo de ambas. Com certeza, nem sempre as crises serão
resolvidas, e as tradições nem sempre serão conciliáveis.
É assim,
portanto, que MacIntyre apresenta uma reabilitação da ética das virtudes que
leva em conta tanto a dimensão pessoal quanto coletiva, nos diversos âmbitos da
vida humana, sempre buscando um aperfeiçoamento dos valores a serem
estabelecidos e seguidos. Crítico tanto do liberalismo quanto do marxismo, por
ambos beberem do paradigma moral moderno que rejeita, ele é classificado por
alguns intérpretes como comunitarista, mas também rejeita essa definição. Ele
se define como um aristotélico-tomista, sendo sua ligação com o Aquinate não
apenas de cunho teórico-filosófico, mas também religioso, dado que também se
declara católico. É hoje um dos filósofos mais importantes no campo da
filosofia moral. Sua obra tem sido aos poucos descoberta, estudada e até
traduzida para o português.
Entre suas principais
obras de filosofia moral, temos tradução brasileira de: Depois da virtude
(EDUSC, 2001, esgotada; Vide Editorial, 2021); Justiça de quem? Qual
racionalidade? (Edições Loyola, 4ª edição, 2010); Três versões rivais da
investigação moral: enciclopédia, genealogia, tradição (Editora Devenir,
2022); Ética nos conflitos da modernidade: ensaio sobre desejo, razão
prática e narrativa (Editora Devenir, 2022, dois volumes). Faltando entre
as principais obras de filosofia moral a tradução de Dependent Rational
Animals. Há também a tradução brasileira de Deus, a filosofia e as
universidades: uma história seletiva da tradição filosófica católica (Editora
Devenir, 2021) e de dois livros em que comenta aspectos das obras de outros
filósofos: As ideias de Marcuse (Editora Cultrix, 1993, encontrável apenas
em sebos) e Edith Stein: um prólogo filosófico, 1913-1922 (Ecclesiae,
2022).
Há também uma
dúzia de livros publicados sobre a filosofia de MacIntyre, tendo como origem
dissertações de mestrado e teses de doutorado ou outros estudos. Entre esses
livros está o meu A reabilitação da ética das virtudes na filosofia moral de
Alasdair MacIntyre (Editora Dialética, 2022). Além disso, há muitas outras
dissertações, teses, artigos científicos e muitos outros estudos focados na
filosofia do professor emérito da Universidade de Notre Dame nos Estados Unidos
da América. Ainda há muitos aspectos da sua obra a serem estudados, e que se
encontre no Brasil muitos estudiosos dispostos a enfrentarem esse grato
desafio.
Prof. Me. Rafael Ferreira de Melo Brito da Silva

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