Tomás de Aquino e as universidades contemporâneas



Santo Tomás de Aquino (1224-1274), presbítero dominicano e doutor da Igreja, é um famoso filósofo e teólogo cristão-católico da Idade Média. Suas diversas obras têm sido cada vez mais traduzidas para o português, e estudada por católicos, protestantes e universitários. Para se ter uma noção do interesse acadêmico por ele, segundo a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, seu nome está no título de 85 dissertações de mestrado e teses de doutorado no período de 2002 a 2022. Talvez isso mostre o quanto a obra deste homem tem algo a nos dizer ainda hoje, mais de setecentos anos depois de sua morte. É por isso que quero destacar aqui um aspecto das suas obras que pode nos ajudar a refletir sobre a situação das nossas universidades contemporâneas e da própria atividade intelectual. Algo que Tomás fez muito na sua atividade universitária, mas que pouco se pratica em nossos dias.

São muito conhecidas suas obras magnas como a Suma Teológica e a Suma contra os Gentios. No entanto, são as suas Questões Disputadas que refletem como era a pesquisa acadêmica nas universidades medievais. Elas tratam de temas como o mal, o poder de Deus, as criaturas espirituais, a verdade, as virtudes e a alma. As questões disputadas eram uma espécie de método de pesquisa e/ou de aula praticado nas universidades medievais pelos escolásticos. Consistia na seguinte proposta: o professor estabelecia uma questão, os alunos ficavam responsáveis por levantar argumentos contra e a favor e ao professor cabia dar a sentença sobre qual posição era a correta e contrapor a posição errada. Por exemplo, o ser humano tem uma alma imortal? Diante dessa questão, depois da disputa entre argumentos contrários, estabelecia-se argumentativamente, se há ou não uma alma imortal.

O que há de importante aqui é justamente essa atitude de estar aberto a lidar com posições contrárias. Se lermos qualquer de suas questões disputadas, veremos que Tomás de Aquino tem esse empenho de buscar não apenas argumentos com os quais concorda, mas também expõe ao seu leitor argumentos com os quais discorda. Não existe intelectualidade honesta sem que se tenha contato com textos, autores e pensadores discordantes. Quem lê apenas os autores com os quais concorda, jamais será verdadeiramente um intelectual. Seu amor é por si mesmo e por suas ideologias, e não pela verdade. Isso nos faz pensar em algo muito interessante: os medievais liam autores que de certa forma eram contra o ensinamento oficial da Igreja Católica no momento. Se o Aquinate é Doutor da Igreja é porque suas posições são as da Igreja e, portanto, tudo com o que ele discorda, a Igreja também discorda.

Essa é uma forma de refutar a ideia ridícula dos Iluministas (e repetida por muitos contemporâneos ainda) de que a Idade Média é a Idade das Trevas, onde o obscurantismo da fé prevaleceu sobre a razão, impedindo de que se pensasse fora da caixinha. A Idade Média teve seus momentos de trevas tanto quando a contemporaneidade os tem, em muito maior proporção. A ciência moderna e contemporânea permitiu que se produzisse armas de destruição em massa, coisa que os ditos instrumentos de tortura medievais jamais conseguiriam fazer. Mas voltando à questão da pesquisa e do debate intelectual, é preciso reforçar essa ideia de que precisamos dar voz ao contraditório. Se por um lado temos pouco tempo na vida e precisamos concentrar nossos esforços naquilo que importa, por outro ao intelectual cabe o dever de ser honesto e não ocultar aquilo de que discorda. Até porque é um ótimo exercício intelectual refutar argumentos.

Além do embate de ideias contrárias, uma outra lição importante das questões disputadas medievais é o estabelecimento de qual posição está certa e qual está errada. No âmbito da filosofia é muito comum as pessoas dizerem que o que importam são as perguntas e não as respostas. Eu sempre achei que isso fosse bastante ridículo, pois se não se quer saber a resposta, por que se faz a pergunta? O que não quer dizer em absoluto que quem quer que seja tenha a capacidade de dar respostas definitivas para as questões postas pela humanidade. Acredito muito mais em respostas provisórias mais perto da verdade e mais longe da mentira ou mesmo da ignorância. Conforme você vai evoluindo no conhecimento sobre algo, vai deixando de ignorar alguns aspectos de sua totalidade. Seremos capazes de algum dia conhecermos plenamente a realidade? Bem, para Tomás de Aquino apenas na bem-aventurança.

Sendo assim, o Doutor Angélico pode e deve ser tomado como exemplo de professor, pesquisador e mestre, pois realizou com maestria através da metodologia muito difundida na universidade do seu tempo a busca pela verdade. Assim como a universidade medieval também é nesse aspecto modelo para a universidade contemporânea, onde muitas vezes temos a sensação de que o debate se dá entre colegas, em que uns citam os outros, dando pouco espaço a quem discorda. É incrível como nos nossos tempos a defesa da democracia está muitas vezes ligada à defesa de se calar, cancelar, excluir da vida pública pessoas que falam o que vai contra o politicamente correto. A política contemporânea pós Maquiavel tem preocupação única e exclusivamente com projetos de poder, e nunca com a verdade. Submeter a busca pela verdade aos parâmetros politicamente aceitáveis, é submetê-la a esses projetos de poder, muitas vezes escusos e obscuros. Que o Sol da Justiça que é Deus, a quem Tomás de Aquino tanto amou e serviu, nos ajude sempre a buscar a Verdade que é Ele mesmo.

Prof. Me. Rafael Ferreira de Melo Brito da Silva

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